Sobre o processo seletivo da quarta turma (2018)

Dada a grande procura de pessoas interessadas no Núcleo de Dramaturgia SESI Rio de Janeiro, um mês após o início das atividades da quarta turma (2018) do Núcleo, escrevo essas palavras visando refletir um pouco mais – e publicamente – sobre como funciona o processo seletivo de novas autoras e autores que passam a compor nossa turma anual.

Conforme divulgado no REGULAMENTO PARA INSCRIÇÃO DE AUTORES PARA FORMAÇÃO DA QUARTA TURMA (2018), destaco: o projeto pedagógico proposto à quarta turma visa aliar ao pensamento da formação em dramaturgia reflexões e práticas relativas aos diferentes modos de composição dramatúrgica.

Pois se estamos interessados em formar autoras e autores que queiram escrever “para teatro”, logo, não podemos definir de antemão o que é nem o que deve ser a escrita “para teatro”. Coloco, intencionalmente, a expressão “para teatro” entre aspas, afinal, o que é a escrita teatral? Ela segue modelos seguros? Tem que ser exatamente como ditam os manuais de escrita? Penso que a escrita para teatro é tão efêmera quanto a própria experiência teatral. Dramaturgia, observo, está sempre morrendo e nascendo de novo, de maneira renovada, posto esteja sempre em diálogo com o que há fora do texto, ou seja, a própria vida, a realidade em que vivemos.

O Núcleo é um projeto de estudo e criação, de pesquisa e investigação em dramaturgia. Naturalmente, em nossos encontros semanais, estudamos dramaturgias criadas no decorrer dos séculos, mas, sobretudo, estamos interessados em como as autoras e autores da turma se posicionam em relação ao que estão estudando, em relação ao que sentem, em relação a como imaginam que a escrita para teatro possa ser. É um percurso que busca aguçar e atiçar o desejo e a intuição criativa de cada integrante da turma, logo, tal percurso não pode ser enquadrado por modelos “seguros” e/ou “já aceitos” do que é dramaturgia.

 

Criação e fotografia de Chema Madoz (2014).

 

No REGULAMENTO, fazemos constar o seguinte: Cada autor(a) deve enviar para o processo de seleção um (01) texto de sua autoria com a respectiva ficha de inscrição e documento de identificação digitalizado. Esse é o material solicitado. Um texto. Qual texto? Qualquer texto. Aquilo que cada um entende por texto. Pode ser o texto que for, no formato que vier, feito poesia ou conto, diálogo ou épica, enfim, não importa o “formato”; pode – inclusive – ser um pouco de cada coisa, tudo junto e misturado. Importa que o texto inscrito manifeste o desejo de quem escreve; que o texto seja o desejo de quem escreve encarnado em palavras.

Outros critérios, também presentes no REGULAMENTO, contornam melhor esse texto a ser inscrito: – O texto inscrito deve ter obrigatoriamente entre 07 e 11 laudas e estar na íntegra. Por “texto na íntegra” entende-se um texto com começo, meio e fim; – Não serão aceitas adaptações ou reescrituras de obras; – Não serão aceitos textos escritos por mais de uma (01) pessoa.

Assim, acredito, o contorno fica evidente. Basta ler o REGULAMENTO com atenção: um texto com início, meio e fim; um número mínimo e máximo de laudas; não vale ser uma adaptação de um texto de outro(a) autor(a); e precisa ser um texto escrito pelo(a) próprio(a) autor(a) que estiver se inscrevendo no Núcleo. Eis as coordenadas e, acredito, elas informam de maneira precisa apenas o que é necessário.

Imagino que seja natural, ao se inscrever, pensar que algo possa interessar mais aos avaliadores; pensar que, talvez, se deva propor um texto mais afinado a uma poética textual mais contemporânea ou reconhecida… Honestamente, nada disso nos interessa. Não mesmo. O processo de avaliação dos textos inscritos se relaciona com o texto inscrito e não a partir de um “gabarito” que informe o “certo” ou o “errado”.

Sobre os critérios de avaliação

Conta no REGULAMENTO: A decisão final sobre a escolha dos participantes é irrecorrível e inquestionável. Os pareceres dos avaliadores não serão disponibilizados aos candidatos. De fato, tal cláusula é importante dada a grande quantidade de inscritos a cada edição do projeto. A seguir, porém, tento dar um parecer sobre como – e a partir de quais critérios – é feito o processo de avaliação dos textos inscritos.

São, ao todo, quatro (04) avaliadores. Enquanto coordenador, eu faço a leitura e avalio todos os textos inscritos (na edição desse ano, foram quase 100 inscritos). Outros três (03) avaliadores são convidados. Cada texto inscrito, obrigatoriamente, é avaliado por mim e por mais dois (02) avaliadores, ou seja, cada texto recebe três (03) notas. A partir dessas notas, chegamos a um ranking e é a partir dele que convidamos para a segunda fase (entrevista) cerca de trinta (30) autoras e autores (para compor a nova turma que tem sempre quinze integrantes).

Sobre os critérios, o que posso dizer é que, ao avaliarmos os textos inscritos, buscamos algumas “coisas”. São elas: 1) avaliar como o texto inscrito se relaciona com a noção de ação, ou seja, o texto inscrito faz com que coisas aconteçam?; 2) Avaliar como o texto inscrito faz uso da linguagem, por meio de quais formas e procedimentos, fomentando quais tipos de revelações, ou seja, brinca-se com a linguagem com qual intuito?; e 3) Avaliar como o texto inscrito faz trama entre a criação artística (textual) e a realidade social, ou seja, escreve-se apenas cena ou, ao se escrever uma cena, se escreve também mundo, outro mundo?

Arrisco dizer que, de uma maneira geral, tais critérios de avaliação contornam questões muito pertinentes sobre qualquer texto que seja produzido contemporaneamente. Quando se cria um texto, inevitavelmente ele vai agir alguma coisa; ele, o texto, é um exercício – inevitável – de linguagem; e tal escrita vai ser tensionada pela época em que o seu leitor está presente (e lendo tal texto). Tais critérios não são fixos. A cada ano, conversamos e “inventamos” novos critérios a partir de um pensamento direcionado ao tempo presente.

Uma consideração final

Como coordenador, quisera eu que todos os inscritos pudessem integrar as atividades do Núcleo. Mas, sabemos (e isso também consta no REGULAMENTO): a turma se completa com apenas quinze (15) autoras e autores. É pouco, mas é um número grande se pensarmos que, no decorrer do ano, será dada atenção a cada autor(a), ouvindo, compreendendo e desdobrando suas intuições e ambições criativas.

Dito isso, aproveito esta postagem para ressaltar que a “reprovação” nesse processo seletivo não significa, necessariamente, uma “reprovação” do texto inscrito. São inúmeros textos e com qualidades e provocações muito diversas. De um ano a outro, várias autoras e autores estão se inscrevendo novamente, outras e outros desistem. De qualquer forma, afirmo: escrita é coisa que não acaba. Que este projeto dure muito tempo, eu espero, para que novas autoras e novos autores possam se aproximar e seguir desenvolvimento suas escritas que, independente do Núcleo, já existem e continuam existindo e se descobrindo.