Encontro com a atriz e dramaturga Keli Freitas

Em nosso encontro #20, recebemos a presença da atriz, diretora e dramaturga Keli Freitas. Na verdade, tais classificações são imprecisas em relação à Keli, justo porque ela é mais que isso e mistura tudo tornando o jogo das definições um jogo meio anêmico e mesmo desnecessário.

Antes do encontro com ela, pedi que ela me enviasse por e-mail – para que eu encaminhasse à turma – algumas de suas dramaturgias. Pedido insensato. Talvez eu devesse ter escrito a ela: “dramaturgia não, enfim, dramaturgia, alguns escritos, coisas, sei lá, alguma coisa dessas inúmeras que você compõe, recompõe, dispõe, enfim…”. Falar do trabalho da Keli é se perder para se encontrar de novo (ainda mais mexido e modificado).

Tanto é que meu caderno (este sobre a mesa na foto) virou, no encontro com ela, um quadro, um emaranhado de palavras que mais parecem desenhos traços esboços sinais…

Um aspecto do trabalho da Keli que me interessa muito – e também por isso a convidei para esse encontro – é sua operação via pós-produção (que leio a partir de Nicolas Bourriaud) ou ready-made (que leio a partir do coletivo francês Claire Fontaine). Keli não é uma criadora original. Eis uma intencional contradição: a originalidade de sua criação talvez resida no fato de que ela não é quem determina a origem do que vai ser criado. Keli, me parece, descola coisas de seus lugares habituais, pega folhas soltas no chão da rua (folhas de árvores e cartas que perderam seus destinatários), sublinha uma frase entreouvida por aí, observa o mundo e as pessoas e, quando senta para escrever, é como se a sua operação criativa fosse “mera” transcrição do mundo que a atravessou.

Isso nos leva a pensar o trabalho artístico menos enquanto uma ação do gênio criador, sempre original, e mais enquanto um modo de compor, uma composição, uma ação de dispor, expor, sinalizar, anunciar, revelar o que por vezes já está presente, mas escondido ao olhar “comum”. Desvelamentos, revelações, descobrimentos (tirar a cobertura, o cobertor, fazer brilhar os íntimos…). Dramaturgia em movimento.

Eu me perco falando sobre tudo isso. Acontece. Keli nos fala de suas primeiras experiências como atriz. Mais uma vez: dramaturgia a partir de quem se é, das experiência que se viveu e menos enquanto um trabalho de gabinete. Faz pouco tempo, Keli destaca, ela voltou à universidade. O exercício da reflexão crítica sobre a própria criação, com a Keli, eu observo, é também a sua própria criação. As misturas e ultrapassagens de gêneros talvez explodam por conta disso: pensar sobre arte é já fazer arte, refazê-la (ela, a arte, ela, a criadora também).

Escrevo em meu caderno: seria então dramaturgia um ponto de vista? Pergunta que voa e nos sobrevoa.

Volto ao processo de montagem de uma criação como a própria criação em si. O processo está evidente – em graus diversos, em intensidades inúmeras – na própria obra criada. A montagem evidente revela o processo, o caminho, o percurso e – sobretudo – nos confirma o inacabamento das coisas (da vida, da realidade, do humano). Impossível não pensar em Bertolt Brecht, pois se tudo é um pouco inacabado, logo, nem tudo está pronto e, por extensão, tudo ainda pode ser modificado, refeito, recomposto.

Em algum momento perguntamos à Keli onde estava a estranheza do trabalho dela. Estranheza, para nós, deriva de estranhamento, de desfamiliarização. O estranho como aquilo que me faz aprender de novo, ver o mesmo, porém, com novo olhar. Ela respondeu: “na valorização do efêmero”.

Penso: se na operação criativa dela (em suas operações) há essa valorização do efêmero, busco então o efêmero nas formas e desformas inúmeras de suas criações. Quero dizer: há uma artesania que denota a delicadeza do processo de composição. Ela diz, num dado momento, “eu fico feliz com um trabalho quando eu descubro a forma no processo”. A forma no processo. Parece tão óbvio, mas não é. Não é tão evidente. Quantos processos criativos começam perseguindo formas já prontas? (Isso é uma possibilidade, sem dúvida). Mas, quantos processos de criação já começam criados e já terminados?

Valorizar o caminho do processo enquanto o caminho que nos levará – inevitavelmente – à revelação da criação (e de “sua forma”) é também defender a presença do corpo. É defender a criação como algo que acontece também em quem cria e não como um mero produto que se faz e dispõe ao seu público-consumidor.

Essas linhas aqui escritas, transcritas, copiadas e coladas, são, antes de tudo, um pouco do muito que o encontro com Keli nos deu. Mais uma vez, sem pretensão de esgotar questões, volta à questão que permanecia em aberto para abri-la ainda mais: seria dramaturgia um ponto de vista? Um modo de encarar o mundo e de assustá-lo?