Encontro com o ator e diretor Viniciús Arneiro

Recebemos o ator e diretor Viniciús Arneiro para uma conversa em nosso encontro #27 na terça-feira 03 de outubro de 2017. Arneiro chegou num momento em que estamos discutindo as diversas relações entre texto e cena, entre dramaturgia e encenação teatral.

Dentre as dramaturgias estudadas para esse encontro, selecionamos duas que foram dirigidas por Arneiro: “Rebú” de Jô Bilac (em 2008 com a companhia Teatro Independente, da qual Arneiro é fundador e integrante) e “Os Sonhadores” de Diogo Liberano (2016).

Um dos objetivos ao convidar o Vinicius para estar conosco foi justamente este: para vermos – a partir do olhar de um diretor teatral – um pouco mais sobre as diversas relações entre o texto e a cena, sobretudo, sobre o processo de composição do texto em simultâneo ao de composição da cena. A princípio, poderíamos pensar que esse tipo de discussão está ultrapassada ou que muito já foi falado sobre isso, porém, no caso do Núcleo de Dramaturgia, não me parece honesto encerrar assuntos e discussões. É sempre de novo, sempre com renovação da escuta e do olhar.

Destaco assim, a partir de nosso encontro, aspectos sobre o processo de criação dramatúrgica em processo colaborativo. Na sala de ensaio, o diretor e o elenco. Além deles, uma equipe de criação, uma equipe com outros escritores (a cenógrafa, o figurinista, o diretor musical, o iluminador etc). O dramaturgo, neste contexto, é alguém em estado concentrado de afetação. Ele ouve as intuições dos atores e do diretor, ele ouve suas intuições, ele risca um traço, esboça uma possibilidade, ele a entrega num ensaio e, a partir daí, vai – novamente – recebendo olhares sobre aquilo que está tramando.

É curioso e delicado esse jogo de afetação porque, sem dúvida, num dado momento, o dramaturgo começa a ter mais “certeza” do que está propondo. Ao mesmo tempo, as cenas já entregues vão se firmando no corpo do elenco e no espaço da cena. O texto do dramaturgo vai se discernindo através dos corpos que o performam, o texto vai se diferenciando pelo outro e através do outro; o texto vai sendo ainda mais e mais (aquela formulação já bastante dita: “o texto ganha corpo”). Os criadores – em simultâneo – vão passando tudo a limpo, como se por cima das escritas feitas à lápis, viessem com a caneta. Algo vai se encontrando e se firmando.

Sobre “Rebú” (em destaque na foto de Paula Kossatz), é interessante observar algo que Viniciús nos conta: no início do processo, as rubricas escritas por Jô Bilac pareciam não abrir possibilidades, mas, ao contrário, encerravam. Ora, o processo de criação não era “a partir de” algo que Jô vinha criando, era justamente uma encenação de seu texto. O diretor então percebe que algo no texto (as suas rubricas, as suas indicações sobre “como deveria ser a cena”) não possibilita o florescer da cena, ao contrário, entrega-a meio que “pronta”. Daí foi pedido ao dramaturgo que continuasse escrevendo as rubricas, mas que antes de enviar o texto para a sala de ensaio, que tirasse todas elas.

Intrigante, eu penso: quantas escritas escreve o dramaturgo? De quantas formas ele compõe o seu percurso narrativo, dramático etc? Mais que isso: quais dessas composições chegam ao outro, quais são enviadas à sala de ensaio? Em outras palavras (e escrevo a partir de minhas experiências e também através das discussões em Núcleo): quantos arquivos, quantos textos e esboços, um dramaturgo escreve até conseguir escrever “aquilo”, “aquela” versão que será a “final”? Trabalho de tentativas e experimentação.

 

No caso de outra dramaturgia dirigida por Viniciús, “Os Sonhadores”, que escrevi em 2016 a partir do romance homônimo de Gilbert Adair, a investigação se deu por outro caminho. A dramaturgia investigava de maneira muito intensa as relações entre aquilo que (supostamente) sustenta os gêneros dramático e épico. De um lado a presença de diálogos entre os personagens e ações que se pretendem presentes, do outro a narrativa tomando o espaço da fala entre personagens. Dramático e épico se misturando não para assassinar gêneros, mas para experimentar o seu encontro, alguma mistura sua, sua indiscernibilidade.

Sobretudo, no caso de “Os Sonhadores”, desde muito cedo, em processo, reconheceu-se que a dramaturgia seria escrita bastando a si própria, ou seja, menos determinada em dizer sobre a cena e absolutamente focada em conseguir contornar, por meio de palavras e ações, narrativas e atmosferas postas no papel, aquele contexto histórico no qual o drama aparecia. Ou seja, a dramaturgia nunca dependeu da cena, ela sempre foi um modo de olhar para fatos que ocorreram em 1968 e que já tinham sido revistos e reescritos pelo romance de Adair.

Dessa forma, quando as cenas eram entregues ao diretor e ao elenco, não nasciam questões relativas ao texto como um manual querendo determinar a escrita da cena. Ao contrário, o texto abria perguntas aos criadores da cena: o que acontece aqui nessa cena? Como vocês vão compor – cenicamente – essa situação ocorrida entre os personagens? Mais que isso, acredito que a dramaturgia talvez tenha perguntando como quem pede ajuda também: como podemos lidar com essa situação? De que modo?, pergunta a dramaturgia à encenação.

É Jean-Pierre Sarrazac que vai nos dizer sobre como o drama moderno e contemporâneo assassinam o belo animal aristotélico (as unidades do drama, de ação, espaço e tempo) e passam a compor bichos híbridos, bestas mesmo. Falo então sobre desfigurar o drama, sobre amputar o belo animal, sobre tirar dele seu eixo e passar a ver a criação como um risco constante, como uma desintegração que fala, como uma ferida que escreve a partir do jorro de sua própria dor.

Sobre isso, a saber, sobre uma possível operação de desfiguração das escritas clássicas, Arneiro nos deixa um olhar – no mínimo – paradoxal e paradoxante: “ao mesmo tempo em que acho fascinante, é um espaço minado”, ele diz. Ou seja: é sim fascinante operar um clássico, mexer com ele, amputá-lo; ao mesmo tempo é um campo minado porque pode-se perder tudo, pode-se explodir tudo: o universo de uma obra e você mesmo, você e os criadores que a tentam criar. Voltamos, então, ao risco que é a própria criação. Sempre um caminhar destemido e temeroso; sempre um caminhar.

Destaco algo que Viniciús nos disse, algo como “uma peça é uma peça, um pedaço”. Pedaço de um caminho. Ele ouviu alguém dizer isso e nos contou sobre. E assim ficamos, refletindo uma criação não como uma chegada final, não como algo totalizante e capaz de deter tudo, mas como um passo, um pedaço, um gesto no oceano de possibilidades que seguem vindo e se escrevendo-inscrevendo. “Uma peça é um pedaço”. E a busca de uma artista costura peças e mais peças, a escrita de um artista, então, mais do que assegurar uma obra, a obra, sua escrita é antes um gesto, um ato.

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