Encontro com o diretor teatral Rodrigo Portella

Em nosso encontro #8, recebemos o diretor (e dramaturgo) Rodrigo Portella para uma conversa. Foi interessante observar, logo no início, como o próprio colocou o “ser dramaturgo” entre aspas. Para Portella, o seu trabalho com a escrita de dramaturgias é uma derivação (desdobramento) da prática enquanto diretor. Um bom ponto de partida para um encontro que foi muito especial e revelador.

Destaco a seguir algumas coisas que foram ditas e também reflexões que fiz a partir do encontro:

De imediato – e faço vizinhança com o Rodrigo nesse sentido – ele reforçou bastante a intuição e o desejo como motores da criação artística. Durante alguns minutos de nossa conversa, Portella falou bastante sobre a importância (ou apenas a escolha) de abandonar e se livrar das formas (por exemplo: o sucesso e a própria cidade do Rio de Janeiro). Tal movimento de “abandono” acaba por trazer ao artista, ao criador, a diferença. Falamos um pouco sobre esse percurso em sua trajetória: de ter vindo para o Rio de Janeiro, estudado, criado e retornado ao interior do Estado, para a cidade de Três Rios, onde o seu trabalho pôde – a despeito da “capital” – florescer ainda mais.

Recordo-me de estudos e escritos que fiz na minha pós-graduação sobre a bruteza daquilo que chamo de fôrma. A fôrma é a forma intensificada, contornada, definida e sempre se manifestando enquanto imposição. Quantas fôrmas se impõem sobre o trabalho artístico e sobre o artista? É possível respirar (a criação) dentro de fôrmas? Como sair delas, como se livrar delas? Voltamos ao início da conversa com Portella: desejo e intuição são “coisas” um tanto disformes, precisam ser assim por um tempo, de forma que a forma (a fôrma) acaba sendo um empecilho à criação.

“Não queria ter nada que me aprisionasse”, ele disse e eu anotei em meu caderno. Sua fala foi, pouco a pouco, evidenciando uma relação muito intensa entre escuta e disponibilidade como alicerces para a criação artística.

Para o encontro com ele, fizemos leituras de duas dramaturgias enviadas por ele: “Antes da Chuva” e “Alice mandou um beijo”. Ambas dramaturgias foram criadas e encenadas pela Cia Cortejo. Ao conversarmos sobre “Antes da Chuva”, que foi criado a partir de (inspirado por) obras literárias, algo se revelou com bastante força (justamente porque já havíamos refletido sobre isto em encontros anteriores do Núcleo de Dramaturgia): a possibilidade de transformar histórias anônimas em canônicas, ou seja, encontrar no específico o universal.

Falamos muito sobre isso em nossos encontros. Gosto muito de citar a universalidade, por exemplo, de “Romeu e Julieta” de William Shakespeare a partir, justamente, da especificidade dos personagens: Romeu e Julieta são Romeu Montecchio e Julieta Capuletto. Eles são específicos, não são todo o mundo, mas, justamente por sua especificidade (poderíamos dizer algo sobre subjetividade?), justamente por serem seres individuais e específicos, alcançam – junto e através da dramaturgia – aspectos extremamente universais. Em outras palavras: todo o mundo cabe um pouco em Romeu e Julieta, todo o mundo se reconhece um pouco em sua história.

Em conversa, especulamos inclusive como esse jogo de ser específico para atingir algo de ordem mais geral, mais universal, é uma maneira interessante para mirar as obras clássicas, um modo potente para “atualizar” os clássicos. Explico: eu leio o “Fausto” de Goethe, por exemplo. É uma história específica. No entanto, quantas coisas ali descritas também não se assemelham, por exemplo, à minha vida? Como olhar – dramaturgicamente – para uma vida anônima e encontrar nela o seu arco dramático (vizinho ao arco de um personagem clássico)?

Especulações que carecem de reflexão mas que anunciam algo interessante demais que é, justamente, a possibilidade de qualquer um ser alguém, de justamente os “coadjuvantes”, antes de serem coadjuvantes, serem pessoas específicas e não meramente decorativas.

Portella nos falou muito sobre o trabalho realizado diretamente em relação com os atores. Eles explodem a criação, a criação nasce a partir deles, de seus corpos e seus olhares sobre questões, temas, obras e referências. É a partir desses corpos que uma dramaturgia começa a se anunciar. Para ele, dramaturgia é mais uma ferramenta. Eu penso: dramaturgia é um modo de. Um modo de operar, de compor, de apresentar e convocar à experiência (tanto ator, como espectador, como leitor etc).

Sendo, para Portella, a dramaturgia uma ferramenta, podemos assumir o texto teatral então como um ativador do jogo e – mais que isso – como um pré-texto, um pretexto. O texto não é um punhado de palavras cujo destino é ser dito ou comunicado. Mais que isso, o texto é catalisador de jogos e o fazer teatral é o jogo em si. Sem o jogo, para ele, é como se não existisse teatro. Ele, citando Denis Guénoun (lembro do ótimo livro “O teatro é necessário?”), afirma que, após o cinema, o que sobrou ao teatro foi somente o jogo, o jogo presente e presencial, atual e atualizador.

Uma questão que fica: como fazer drama através da narração?

Por fim, destaco indicações de dramaturgias que pedi ao Portella que nos desse. Ele nos sugeriu “A gaivota” de Anton Tchekhov, “Na solidão dos campos de algodão” de Bernard-Marie Koltès e “A Máquina” de Adriana Falcão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *