Encontro com o dramaturgo Pedro Kosovski

Foi em nosso encontro #28 que recebemos o dramaturgo Pedro Kosovski. Por vezes, ao escrever essas publicações aqui nesse diário, preciso me lembrar o tom de tal escrita e seu propósito: escrevo a partir do que me chegou, sem pretensão de fechamento ou certeza; escrevo para manifestar a continuidade das reflexões que, a cada novo encontro, se atualizam e se desdobram ainda mais. O encontro com Kosovski foi, sem dúvida, um grande catalisador daquilo que vínhamos estudando e discutindo desde o início do ano.

Começamos o encontro apresentando ao Pedro como funcionava o Núcleo de Dramaturgia. Discutimos sobre a importância desses espaços de formação, de discussão, de pesquisa e criação em dramaturgia. Ele nos conta sobre a década de 1990 no Rio de Janeiro e sobre uma “escola” nascida para investigar a nova dramaturgia carioca (e brasileira). O projeto acontecia na Sala Paraíso do Teatro Municipal Carlos Gomes, como proposição de artistas como Roberto Alvim e Fábio Ferreira, dentre outros.

Brotam perguntas em meu caderno: “você consegue disparar uma criação que não a partir do texto”. É uma afirmação, mas com densidade de pergunta. O trabalho em dramaturgia, por vezes, me parece, vira uma prática para dar a ver certas (e incertas) coisas. A dramaturgia enquanto um modo de ver, como um tomar de posição a partir da qual se vê melhor, pior, mais concentradamente, mais explosivamente…

Pedro nos conta sobre a sua companhia, Aquela Cia., criada junto com o diretor Marco André Nunes. E então começamos a falar um pouco sobre os processos de criação dramatúrgica. Para este encontro, buscamos ler algumas de suas peças (como “Cara de Cavalo” de 2012 e “Caranguejo Overdrive” de 2015). Seguimos conversando sobre a criação de dramaturgias em processo colaborativo. Como criar um norte para essa criação? Há norte possível? Outra pergunta: qual é a necessidade da peça teatral para a dramaturgia?

Kosovski nos fala bastante sobre o desejo, sobre como materiais vão se acumulando e abrindo sempre novas possibilidades e novos desejos. Desejo explode desejo. Nesse jogo, em que a criação vai se criando e se alastrando e multiplicando, ele reforça a grande tarefa que é saber tirar (ou não) aquilo que vai se colocando num processo criativo; algo como um pensamento econômico sobre a dramaturgia: um trabalho de dosagem e de overdosagem. Mais uma vez: a criação como um espaço-tempo de risco e, por extensão, de transformação.

Especificamente sobre “Cara de Cavalo” (em destaque na foto acima), Kosovski nos conta sobre as matérias que estavam presentes no jogo de composição da dramaturgia-peça: muitos registros e materiais documentais como também uma série de questões emergenciais, como que pontos de vista do hoje lançados aos fatos históricos (sobre os quais os registros e documentos falavam). Há uma diferença grande, imensa, abismal, entre o registro histórico e a emergência do presente ao mirar tais acontecimentos.

Recordo-me da “Poética” de Aristóteles quando ele marca essa diferença entre os acontecimentos históricos (já escritos) e o poema mimético (a poesia). Se o acontecimento histórico se inscreve como fato já feito, o poema mimético – a imagem poética criada pelo poeta – traz em si a possibilidade de reescritura, de desvio e recomposição. A poesia muda o fato. Muda no sentido de modificá-lo, muda no sentido de emudecê-lo, pois é ela quem fala agora, a partir daquilo já ocorrido, não para narrar o que já foi, mas, para ao narrar, nos fazer pensar e repensar sobre o já feito (e sobre para onde queremos ir a partir de agora…).

A partir disso, em conversa, fomos detectando a poesia como uma operação de traição da História, afinal, para quem você fala? Para quem se dirige? A rigidez da escrita histórica não faz participar o outro, o outro presente, o outro que vive no agora dos tempos. A poesia, ao contrário, conversa com os séculos, versa com aquele que se dispõe a ela. Não se trata, obviamente, de opor história à poesia, mas de observar suas diferenças justamente para que se possa escolher.

Kosovski nos diz algo muito bonito: “que cada peça possa gerar outra peça”. Que coisa linda. Reforça o encontro com Viniciús Arneiro (que nos disse sobre “uma peça” como “um pedaço”). Que cada peça possa gerar outra peça. O que é um artista senão uma busca? O que é um artista senão um punhado de desejos? Desejo desconhece corpo, eu penso, desejo é imagem, nos diz Giorgio Agamben. O corpo do desejo é a imagem. Por isso, ao imaginarmos, já realizamos. Não há falta, nem doença. O que há é imagem e desejo, desejo em imagem e através delas.

Pensar dramaturgia enquanto desejo é pensar dramaturgia não como encerramento, não como um texto, o texto, mas como uma composição provisória para um instante ao qual ela se dispõe a olhar. Por isso também, Kosovski nos reforça a ambivalência da escrita dramatúrgica. Ela é cênica, sonora, da palavra, ela é e não é tudo isso. Ela abre e fecha, eu penso. Abre a cena, encerra a cena, ela é um desejo que cria e recria corpos e sensações. Especulações, especulações… Que lindo e importante encontro.

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