Encontros com a atriz e performer Flávia Naves

Realizamos três encontros seguidos com a atriz e performer Flávia Naves, cada um em uma semana. Eles foram os nossos encontros #9, #10 e #11, respectivamente nas terças-feiras 23 e 30 de maio e 06 de junho de 2017. Todos aconteceram no auditório do SESI/SENAI Laranjeiras e, no último dia, algumas ações também foram realizadas na rua.

O convite que fiz à Naves foi para que ela viesse investigar conosco alguma relação possível (ou mesmo impossível) entre dramaturgia e performance. Já faz tempo que eu vinha diagnosticando e experimentando como a prática da performance – ao energizar o corpo do criador em criação – trazia uma potência muito grande também para o corpo do artista que escreve através de palavras.

As palavras que aqui escrevo são marcadas por esses três encontros e não têm nenhuma pretensão de configurar alguma verdade ou certeza. Seguem sendo como os encontros foram: pura experiência, puro experimentar.

No primeiro encontro, Naves propõe um jogo bastante simples e extremamente denso. Pede que cada um, um de cada vez, com a folha em branco (A4) entregue por ela, vá até o “palco” e se posicione de frente para toda a turma. Num primeiro momento com o papel em mãos, virado para frente; no momento seguinte, após apoiar o papel no chão, mirando os presentes sem papel.

A imagem é fortíssima. As reações são diversas. O que vejo diz respeito a uma espécie de escudo. O papel na mão de um dramaturgo é aquilo que faz a intermediação dele para com o mundo. Sem o papel, extrema exposição. (Penso: com o papel, exposição concentrada?) Muitas outras possibilidades se anunciam a partir desse jogo que me faz chegar ao motivo que me fez intuir a importância da prática da performance num grupo para estudo de dramaturgia: o corpo do escritor importa para a escrita, a escrita é uma extensão-dobra do corpo do escritor.

Em seguida, Naves realiza uma ação para cada autor da turma. Ela havia lido os textos escritos por cada um – textos usados por eles para se inscreverem no Núcleo de Dramaturgia – e age, “para e com” cada dramaturgo uma ação específica. Durante as ações, escrevo no meu caderno: “o que tais ações escrevem enquanto possiblidades dramatúrgicas?”. As perguntas não cessam de aparecer. Especulo respostas: estados, intensidades, narrativas, gestos, desejos, ações, efetivações…

Na sequência, juntos e em roda, discutimos um pouco o artigo da performer e teórica da performance Eleonora Fabião: “Programa Performativo: o corpo-em-experiência”. Converso com eles sobre a possibilidade de um programa performativo, porém, “dramaturgivo”. Havia praticado isso de maneira bastante consciente na escrita da dramaturgia “JANIS” (2015). Chamo atenção para a performance enquanto um “chamado para si mesmo”, para acessar novamente a dimensão do corpo. Dramaturgias do corpo, escritas do corpo, escritas da dramaturgia…

Para o encontro seguinte, Naves solicitou que cada um preparasse uma ação a ser realizada.

No segundo encontro, Flávia propôs que cada um se posicionasse em frente ao restante da turma. Num primeiro momento, as pessoas deveriam fazer uma descrição objetiva de quem estava sendo visto por todos; no seguinte, uma descrição subjetiva dessa mesma pessoa.

Destaco alguns escritos que fiz no meu caderno:

Atestado de existência. Estado de.

É interessante estar na posição de ser descrito objetiva e subjetivamente. O jogo de ouvir o que é dito pelos outros nos sugere uma resposta quase automática que passa pelo confirmar ou não o que foi dito. Quando se acalma essa demanda por responder – ou corresponder – ao que é dito, é como se você se tornasse um texto aberto para a escrita do outro, para a interpretação que o outro – qualquer outro – sempre fará.

Você como um texto: determinado, lido e interpretado pelo outro que te lê.

A resposta impulsiva do corpo elimina o risco de ser mal interpretado, amortece e tranquila o embate.

O silêncio, no entanto, faz a escrita ser recebida. O excesso de fala (gestual) a interrompe.

Como transformar o corpo em texto? (Ele já não o é?). Os detalhes objetivos, por analogia, seriam as ações (óculos, cordão, camisa, cor da pele, dos olhos etc) e o corpo viraria então a trama (essas ações em trabalho, um tecido, uma tessitura, dramaturgia, enfim…).

Foi preciso continuar os encontros com Naves por mais um dia e lá fomos nós.

No último encontro, realizamos as últimas ações a partir da proposição feita por Naves. Interessante foi observar que as ações propostas e realizadas pelos autores da turma, de fato, foram progressivamente colocando o corpo em questão.

Como coordenador do Núcleo que intuiu que a performance era determinante para o trabalho de formação em dramaturgia, de fato, algo se confirmou para mim: a performance – em dramaturgia – é menos sobre a criação de um novo texto, mas, antes, ao contrário, é sobre um acordar do corpo de quem escreve. Performance – para um dramaturgo – como um modo de voltar a si mesmo, como um modo de sentir a si mesmo para que, a partir disso, se possa ir ao outro, se possa escrever para fora de si; um modo de assumir posição e rever-reestabelecer relações.

A questão trazida pela performance à prática da dramaturgia é a incontornável pergunta que precisamos fazer: e o corpo, camarada? Se aceitarmos que a dramaturgia é – tradicionalmente – o reinado do autor, da fábula, da ideia e do gênio, para onde vai o corpo?

Outros rabiscos feitos no meu caderno:

Dramaturgia e performance
Performance em dramaturgia
Dramaturgia performativa
Performance do processo de criação em dramaturgia

Agir dramaturgia ao invés de escrevê-la
Implicar corpo para fazer nascer texto
Energizar a escrita através do corpo que escreve

Não se trata de buscar nem de encontrar definições
Trata-se de reconhecer que aquilo que se escreve é escrito por alguém
Este alguém é o autor. O autor
– antes de ser uma entidade, instituição ou função –
É um corpo, uma substância.

O que pode um corpo?

Dramaturgia como saldo de uma aventura a qual um dramaturgo se lança
Se joga, se atira e sobrevive
(porém arrasado pela experiência da travessia).

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