Uma prática, um nunca chegar e um chegar incessante

Algumas palavras sobre o Núcleo de Dramaturgia SESI Cultural e sua terceira turma (2017)

É janeiro de 2018. Como coordenador do Núcleo de Dramaturgia SESI Cultural, começo o ano às voltas com uma série de definições e planejamentos para a continuidade do projeto que neste ano começa a sua quarta turma. As inscrições para essa nova turma começam no dia 22 de janeiro, porém, antes disso, dou-me um tempo para lançar aqui nesse site-diário um breve olhar sobre o tanto que aprendemos e fizemos no ano que passou.

Começo com uma palavra: “pacto”. Gosto dela. Gosto de fazer pactos, de tramar acordos. Um pacto, um acordo, me devolve à dimensão relacional entre os seres humanos, é um gesto que confia na confiança e que, ao mesmo tempo, se lança no risco que é isso de confiar; fiar junto. Foi o que fizemos. Como 2017 foi o meu primeiro ano como coordenador, tudo estava ali para ser experimentado. E só havia um jeito de fazer a coisa toda: fazer junto, por isso, foi preciso confiar.

Assim, desde o nosso primeiro encontro, ainda que eu tivesse um planejamento (pedagógico, consciente e, sobretudo, intuitivo), o que aconteceu foi que o caminho foi ditando o que precisava ser estudado e praticado. É bonito isso. O risco faz parte não apenas da criação, mas da própria existência. Fomos juntos experimentando e abrindo novos caminhos a cada passo. Jogo de afirmação e transformação. Incessante. Que ano cansativo e, também por isso, ano transformador.

Por conta das experiências que tivemos posso afirmar, sem dúvida, o quanto a prática da dramaturgia se transformou em meu ponto de vista. Dramaturgia virou menos um ofício e, junto a isso, também um modo de olhar para a realidade, modo para transformá-la. A coisa se expande e cria circuito com muitas outras (além do universo da criação artística): olhar o mundo com olhos de dramaturgo é desconfiar da sua prontidão, é se interessar pelas suas engrenagens e por cada uma de suas peças. Sobretudo, passo a acreditar, mirar o mundo dramaturgicamente é se permitir ser seduzido pelo jogo do encaixe e do desencaixar; dramaturgia para desprogramar o mundo hiperdeterminado e hiperfuncionalizado.

Foto de André Gomes de Melo

Como fizemos? Filosofamos. Estudamos dramaturgia? Sim, um bocado, mas, sobretudo, filosofamos. Os textos que líamos e conversávamos sobre eram menos sobre teatro e dramaturgia e mais sobre o mundo, sobre a língua e a linguagem, sobre o fascismo da autoria e sua confusão com a autoridade. Não buscamos técnicas de escrita, confiamos no modo como cada um – conscientemente ou não – jogava o jogo de sua escrita. Mais que tudo: líamos os textos que escrevíamos, comentávamos todos eles e escrevíamos novos textos (que novamente eram comentados).

Criamos um corpo coletivo, sem medo de assumir coletividade em épocas tão indispostas ao convívio inter-humano. Aconteceu que a turma 2017 jogou, destemidamente, o pacto travado lá no início. Tivemos rigor, pontualidade e estudamos muito. (Ok, mais para o final, talvez pelo cansaço, tudo isso se afrouxou um pouco, mas o pacto já era todo corpo). As dramaturgias que essas autoras e esses autores compuseram me fazem estranhar e reaprender tudo de novo. Lidamos – e eu repito, lidamos – destemidamente com as dificuldades e dúvidas e criamos a partir das questões impossíveis, muitas vezes dos problemas sem solução, enfim, junto e a partir de inúmeros busílis.

Destaco uma aposta que, como coordenador, eu queria apostar desde o início: a turma de 2017 foi que “selecionou” a colocação final das “melhores” dramaturgias compostas. Próximo ao fim do ano passado, cada autor avaliou quatro textos e, junto às notas que eu dei, chegamos a um ranking que nos deu uma primeira dramaturgia (ROSE de Cecilia Ripoll) que será encenada (e estreia em março de 2018) e outras que, assim como ROSE, serão publicadas.

Destaco e agradeço pelos encontros e pelo aprendizado vivido com artistas convidados (Flávia Naves, Keli Freitas, Pedro Kosovski, Rodrigo Portella e Viniciús Arneiro) para nossos encontros semanais. Destaco e agradeço pelas cartas que foram atenciosamente escritas por outros tantos artistas que admiro profundamente e que, por meio de cartas escritas para os autores da turma, tanto nos ensinaram (Ana Kfouri, Daniel Herz, Denise Stutz, Enrique Diaz, Felipe Ribeiro, Georgette Fadel, Gilberto Gawronski, Joana Lebreiro, Luiz Fernando Marques, Marcelo Castro, Marcio Abreu, Marina Vianna, Miwa Yanagizawa e Susana Ribeiro). Destaco e muito agradeço pela realização da Primeira Semana do Núcleo de Dramaturgia que dinamitou a noção de dramaturgia como algo restrito ao palco e à encenação teatral e abriu novas percepções sobre a potência da escrita dramatúrgica através do encontro desta com a literatura e a performance por meio de vários artistas e profissionais distintos (Adassa Martins, Aline Vargas, André Felipe, Anna Clara Carvalho, Bel Flaksman, Bernardo Lorga, Breno Motta, Caio Riscado, Carol Cony Dariano, Claudio Lima, Daniela Pereira de Carvalho, Denise Stutz, Fábio Osório, Flávia Naves, Fred Araujo, Giulia Zelesco, Guilherme Stutz, Gunnar Borges, Gustavo Colombini, Isabel Diegues, Ítala Isis, João Dias Turchi, Júlia São Paulo, Lucas Canavarro, Lúx Négre, Marcio Abreu, Marici Salomão, Marília Nunes, Natália Araújo, Natássia Vello, Pedro Kosovski, Rafael Lorga, Rafael Ribeiro, Rafaela Azevedo e Ricardo Cabral).

Destaco e agradeço – profundamente – a incessante luta dos analistas culturais do SESI, Julia Santos e Robson Maestrelli, sempre dispostos ao impossível (e, sobretudo, frequentadores assíduos de nossos encontros) e ao Antenor Oliveira, um grande entusiasta e defensor do projeto junto ao SESI. Por fim, agradeço à Thaís Barros (pelo desenvolvimento e programação deste site-diário) e à Lyvia Rodrigues pela linda assessoria de imprensa que vêm realizando junto ao projeto.

E não acaba, pois quero ainda fazer um brinde às conversas intermináveis (que mesmo após o fim de nossos encontros em nós continuavam) e que ainda continuam. Um brinde às noites após os encontros em que continuávamos nos encontrando na Praça São Salvador, bebendo cerveja e fumando, conversando e desdobrando ainda mais aquilo que queria continuar se descobrindo. Junto à turma 2017 confirmei outra intuição que me carrega ao adiante: nada está pronto, tudo segue em movimento. Não há manual nem para escrever nem para aprender e ensinar dramaturgia. É simplesmente uma prática, um nunca chegar e um chegar incessante.

Para este ano de 2018, o que posso desejar como coordenador? Não saber (quase) nada e deixar o encontro se fazer. Ter bastante cuidado e atenção para descobrir e ser descoberto, para me contradizer com a honestidade radical de quem já compreende que as incoerências e dificuldades do caminho são parte dele e, por extensão, da própria vida.

Penso como pode, na vida, algo tão positivo, tão potente, chegar ao fim. Penso – contrariado – como fazer para que tudo isso continue? Ora, após alguns minutos de silêncio, percebo que as coisas continuam desde que a gente permita que elas se modifiquem porque continuar é não ser o mesmo, certo? Agora percebo: continuar é seguir se sendo e dessendo.

Dessendo? Existe essa palavra? Pode existir.

Dramaturgia é aquilo que a gente quiser que ela seja.

Antonio de Medeiros, Cecilia Ripoll, Daniel Chagas, Diego Dias, Francisco Marden, Francisco Ohana, Jean Pessoa, Livs Ataíde, Luiza Goulart, Marcela Andrade, Matheus de Cerqueira, Olga Almeida, Rosane Bardanachvili, Suellen Casticini e Tomás Braune, obrigado a vocês por esse ano-vida que atravessamos juntos.

 

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