EXERCÍCIOS


Busílis (Terceira Turma – 2017)


Inconsciente Coletivo (Quarta Turma – 2018)


Pós-Futurismo (quinta turma – 2019)


O jogo consiste em compor uma dramaturgia disparada e estimulada pelo Manifesto Pós-Futurista, publicado em 2009 pelo italiano Franco Berardi e citado integralmente a seguir:

Há cem anos, Filippo Tommaso Marinetti publicou na primeira página do jornal Le Figaro o manifesto que inaugurou, na consciência estética do mundo, o século que acreditou no futuro. Com o Manifesto de 1909, iniciou um processo veloz de transformação do organismo humano coletivo. A transformação em máquina completou-se com a concatenação da rede global e se reverte hoje, após o colapso do sistema financeiro baseado na futurização da economia, no débito, na promessa econômica. Aquela promessa acabou. Tem início a época posterior ao futuro.

MANIFESTO PÓS-FUTURISTA
1. Queremos cantar o perigo do amor, a criação diária da energia doce que nunca se dispersa.
2. A ironia, a doçura e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia.
3. A ideologia e a publicidade exaltaram até agora a mobilização permanente das energias produtivas e nervosas da humanidade para o lucro e para a guerra; nós queremos exaltar a ternura, o sonho e o êxtase, a frugalidade das necessidades e o prazer dos sentidos.
4. Afirmamos que a grandiosidade do mundo enriqueceu-se com uma beleza nova, a beleza da autonomia. Cada um tem seu ritmo e ninguém deve ser obrigado a correr em velocidade uniforme. Os automóveis perderam o fascínio da raridade; sobretudo, não podem mais desempenhar a tarefa para a qual foram concebidos. A velocidade se tornou lenta. Os automóveis estão imóveis como estúpidas tartarugas no tráfego das cidades. Apenas a lentidão é veloz.
5. Queremos cantar o homem e a mulher que se acariciam para se conhecer melhor e conhecer melhor o mundo.
6. É necessário que o poeta se esbanje com calor e generosidade para aumentar a potência da inteligência coletiva e para reduzir o tempo do trabalho assalariado.
7. Só há beleza na autonomia. Nenhuma obra que não expresse a inteligência do possível pode ser uma obra de arte. A poesia é uma ponte lançada sobre o abismo do nada para criar compartilhamento entre imagens diferentes e libertar a singularidade.
8. Estamos sobre o promontório extremo entre os séculos... Temos que olhar para trás de nós para lembrar o abismo de violência que a agressividade militar e a ignorância nacionalista podem desencadear a qualquer momento. Vivemos há muito tempo na religião do tempo uniforme. A eterna velocidade onipresente já está atrás de nós, na internet; por isso, agora podemos esquecê-la para encontrar nosso ritmo próprio.
9. Podemos ridicularizar os idiotas que difundem o discurso da guerra, os fanáticos da competição, os fanáticos do deus barbudo que nos incita ao massacre, os fanáticos aterrorizados pela feminilidade desarmante que há em todos nós.
10. Queremos fazer da arte uma força de mudança da velocidade da vida, gostaríamos de abolir a separação entre a poesia e a comunicação de massa, gostaríamos de tirar a mídia do comando dos mercados para entrega-la aos sábios e poetas.
11. Cantaremos as multidões que podem, enfim, libertar-se da escravidão do trabalho assalariado, cantaremos a solidariedade e a revolta contra a exploração. Cantaremos a rede infinita do conhecimento e da invenção, a tecnologia imaterial que nos liberta do cansaço físico. Cantaremos o intelectual rebelde, que executa um trabalho precário, mas que se põe em contato com o próprio corpo. Cantaremos a infinidade presente e não teremos mais necessidade de futuro.

Modifico o tópico sete, substituindo as palavras “beleza”, “obra”, “obra de arte” e “poesia” pela palavra “dramaturgia”, para firmar o propósito deste jogo:
7. Só há beleza dramaturgia na autonomia. Nenhuma obra dramaturgia que não expresse a inteligência do possível pode ser uma obra de arte dramaturgia. A poesia dramaturgia é uma ponte lançada sobre o abismo do nada para criar compartilhamento entre imagens diferentes e libertar a singularidade.


A partir dessa provocação e ainda em afetação ao manifesto supracitado, cada autor(a) deverá compor uma dramaturgia que firme um possível capaz de libertar – radicalmente – a “nossa” sensibilidade.

Após o recebimento e leitura atenta destas regras, cada autor(a) teve um encontro presencial com o orientador no qual levou impresso um texto de no máximo 2 páginas com um depoimento radicalmente honesto a partir do mote “Aquilo que eu não faço (nesta dramaturgia)”. Após este encontro, cada autor(a) teve 24 dias para composição da primeira versão de seu texto. Tal versão, na sequência, foi comentada pelo orientador e, 20 dias após o recebimento dos comentários, cada autor(a) entregou a versão final de sua dramaturgia.


Alguns limites foram determinantes à criação da dramaturgia deste jogo: o texto deveria conter um título seguido do nome do autor(a) e deveria ter no mínimo 12 e no máximo 15 páginas (incluindo capa, casa houvesse). A seguir, as sinopses de cada criação, bem como o link para leitura de cada texto:


A torre de Argento do Tombo – de Tiago Torres
Estilhaços, balas de prata, tiros e feitiços. A revolta de um grupo, a mão de ferro da realeza decadente. Cai o castelo, cai a coroa, caem os dentes.





Anima – de Suzana Velasco
Uma relação afetiva se constrói a partir dos espantos da arte e da natureza, que refletem as mudanças de Ana e seu tempo para se sentir acolhida em um novo lugar.



ANTES DURANTE DEPOIS (e tudo agora) – de Gabriela Chalub
Na contramão da demanda de estarmos sempre produzindo e gerando resultados, parar e observar o mundo ao redor nos aproxima da liberdade. Uma viagem exterior e interior, deixando que aquilo se vê e o que se sente atravesse o corpo, na velocidade natural desse encontro.



BALANÇO moving – de Leonardo Hinckel
Dançar. Dar vida aos gestos do próprio corpo. Mover-se. Sentir música, sons, ritmos, batidas, volumes. Ocupar espaços com suas existências. O que vem a ser isso? É o que eles se perguntam todos os dias, ou melhor, eles não se perguntam, eles se movimentam!



BRUXA BRUXA BRUXA – de Teo Pasquini
Olhares e gritos sobre as relações da mulher com os elementos da natureza. Um exercício sobre a bruxa e suas formas de agir sobre todas as forças.



Cume – de de Filipe Meira
Um pequeno grupo de ajuda se reúne para tentar se libertar das amarras em torno de um órgão específico do corpo humano: o cu.



GYNÓIDES – de Sergio Lipkin
O texto narra a vivência de duas gynóides – humanoides com aparência feminina – ao longo de 24 horas de um único dia do mês de maio de 2068. Esse dia singular é marcado pelo lançamento de um movimento de revolta violenta contra a automação e por uma reação dos autômatos que promete alterar radicalmente a estrutura de todo o sistema economico.



Laika – de João Ricardo
O texto articula a memória da cachorra soviética Laika, o primeiro ser vivo a entrar em órbita, aos obstáculos que a repetição insistente do noticiário e a reaparição inesperada de experiências traumáticas impõem para a construção de uma subjetividade. É difícil transformar afetos em histórias, mas contar uma história é uma forma para continuar a viver: assim inventam-se alguns caminhos.



MEL – de Mayara Máximo
O assunto é: você não deve mandar um e-mail pra uma pessoa que deixou de existir. Eu não aconselho pelo simples fato de que não haverá uma resposta. então, pra que serviria mesmo? Eu vou te mandar esse texto porque eu acho que você vai ler de algum lugar.



NÃO DERRAMAR SOBRE FOGO – de Lúcio Martínez
O caos de todos os problemas e a relação com o mundo se desvelam. Um ser humano admira o ser humano admirando uma cachoeira que, por fim, nos reflete. Essa é a única maneira de sobreviver à existência.



nenhum futuro: dos 25 dias em que ele esteve empregado – de Paulo Barbeto
Nenhuma vida jamais chegará a possuir o valor que o mercado atribui a ela. Nenhuma porta aberta há por onde se vislumbre atravessar. Nenhuma perspectiva, por mais otimista (ou pessimista ou realista) que seja, nos fará voltar atrás. Nenhum futuro nos aguarda. Sigamos.



quadro-a-quadro – de Agatha Duarte
O que significa desordem? Corpos femininos domesticados servem exatamente a quem? A ideia de liberdade é uma pintura de um quadro abstrato. Precisamos de espaço pra dançar. Precisamos de ar para não mais morrermos afogadas. Sejamos selvageria e caos.



Relâmpagos, Tormenta, Chuva Fina – de Sonia Alves
Berenice sempre lutou em silêncio com os sinais que seus olhos e ouvidos lhe enviavam. As palavras, petrificadas, foram acotoveladas na garganta, incapazes de encontrar sua boca. Inflamaram, adoeceram, tiravam o ar. Hoje ela abrirá suas janelas.



SEGUNDA VOZ – de Marcos Bassini
Duas vozes tentam escapar dos erros que se repetem, que se repetem, e quanto mais pensam ter se livrado deles, mais emaranhadas ficam no seu eterno retorno particular. A primeira voz é autoritária. A segunda, é sua herdeira.



TRAÇANTE – de Zé Alex
Traçante é um chamariz de saltos temporais que realça aquilo que acontece quando não acontece nada. Pequenas suspensões da correria da vida.